Libação: a base do culto helênico

De modo geral, libar é simplesmente o ato de verter um líquido em honra a uma divindade ou espírito. Dependendo da tradição, existem determinadas regras que direcionam qual deus deve receber a primeira libação. No simpósio, Zeus e os Olimpianos devem receber primeiro (Opuscula I, pg 428), depois os heróis e, em terceiro e último lugar, Zeus Teleios, o terminador. Em alguns casos, era feita primeiro ao Agathos Daemon, em segundo aos Olimpianos e em terceiro lugar a Hermes. Após essas sequências, os participantes são livres para exaltar outros deuses/entidades com libações.

Em algumas tradições, especialmente homéricas, é necessário realizar a primeira e a última libação de vinho doce (costuma-se utilizar vinho tinto suave, especialmente pelo simbolismo com o sangue) a Héstia, a deusa do fogo sagrado, antes de exaltar qualquer outra divindade.

Cerâmica atribuída a Eufrônio ou a Pistoxenos, data do período clássico, cerca de 460 AEC. A pintura representa o deus Apolo realizando uma libação.

A ausência de conhecimento sobre o ato de “libar aos deuses” na mente moderna não reflete o quão comum esse gesto de devoção era na Hélade e, também, nas altas culturas da Idade do Bronze. Durante a oferta, geralmente eram utilizados três termos:

Spondé: saudação dada no ato de libar de um jarro ou recipiente segurado na mão, de modo que o líquido vertido forme um fio bem direcionado (não era comumente usado com deuses chtonicos, ou seja, quando a libação era feita em um buraco no chão). Spondé também corresponde ao simples ato de beber vinho, mesmo que não seja em honra a uma divindade;

Choé: saudação dada ao verter e esvaziar por completo o recipiente com o líquido;

Spondaí: semelhante ao Spondé, mas usado com os deuses chtonicos.

Segundo Walter Burkert, em seu livro “Religião Grega na Época Clássica e Arcaica”, é fundamental que seja feita a libação para realizar a oração aos deuses de modo correto, pois a exortação e a prece a um deus é concomitante com o ato de libar. “Enche-se o copo para orar aos deuses, alcança-se o copo cheio ao convidado com a exortação de que ele ore também”.

Ao iniciar-se uma viagem marítima, por exemplo, são distribuídas canecas com vinho a tripulação e todos devem esvaziá-las na popa do barco com preces e votos, garantindo uma viagem segura. Um exemplo mitológico é na batalha de Pátroclo que, antes de ir a luta, derrama vinho de seu cálice enquanto olha para o céu e ora a Zeus.

Nos rituais gregos de sacrifício animal, as libações marcam o começo da cerimônia: os gritos “Spondé! Spondé!” antecedem o corte. Geralmente, a carne do animal é queimada e, nesses casos, a libação sob as chamas na intenção de apagá-las marca a finalização da ritualística. Alguns historiadores descrevem as libações como um ato de importância equivalente aos sacríficios animais para os gregos.

Não há um padrão único de recipiente para libar aos deuses olimpianos, mas aos chtonicos sim: a própria terra. Na mitologia, Ulisses executa esse ritual na sua evocação aos mortos: sobre uma cova de sacrifícios, o herói derrama uma porção de líquido para todos os mortos – primeiro uma bebida de mel, depois vinho e finaliza com água. O buraco é salpicado com cevada branca e ele inicia sua súplica, prometendo, inclusive, sacrifícios posteriores caso os espíritos cumpram os seus pedidos.

No mito de Ésquilo, Os Persas, vemos que não era incomum a oferta de libações aos falecidos (sim, você pode libar para a sua avó, amigo ou qualquer ente querido que já tenha ido para o Hades, mas cuidado com as práticas de necromancia) – a rainha leva para o túmulo do rei morto leite, mel, água e azeite. Enquanto liba, reza pelo aparecimento do falecido.

O que diferencia o derramamento de líquidos das oferendas sólidas é a irrecuperabilidade: o que foi derramado ninguém pode recuperar. Assim, a libação é a forma mais pura e com mais estilo de renúncia de mostrar sua devoção/reconhecer o poder da divindade/espírito.

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