Pode existir monoteísmo com deuses gregos?

Todos os deuses gregos, seja Hekate, Afrodite, Apolo ou Zeus, estão inseridos em uma egrégora politeísta. Sim, são gregos, pois é nesse panteão que encontramos suas mitologias, relacionamentos e símbolos, mas, em maioria, possuem origens orientais ou indo-europeias. Politeísmo significa que vários deuses são adorados não só no mesmo local e ao mesmo tempo, mas também pela mesma comunidade, pelo mesmo indivíduo.

É o seu conjunto que constitui o mundo dos deuses. Por muito que um deus se preocupe com a sua honra/adoração, ele não disputa com nenhum dos outros a sua existência, pois eles são todos seres imortais.

Rafael Sanzio, O Conselho dos Deuses, 1517.

Não existe nenhum deus grego ciumento, como na crença judaico-cristã, mas há algo que pode ser fatal: ignorar um deles e/ou não reconhecer sua sacralidade. Durante a festa da colheita nas vinhas, Oineus esqueceu de prestar honras a Ártemis, a deusa das florestas, e ela vinga-se fazendo com que um javali destrua os campos cultivados.

Hipólito é um mortal que possui uma conexão íntima com a virgem caçadora, Ártemis, mas despertou a fúria de Afrodite ao desprezá-la. Ártemis não intervem em auxílio dele quando Afrodite o destrói.

“É assim o costume entre os deuses: nenhum de nós gosta de se opor à vontade impulsiva de um outro deus, apenas retiramo-nos” (Tragédia de Hipólito – 1328-30).

Ignorar ou desrespeitar um deus significa amputar a abundância do mundo e a integridade do humano, visto que cada um dos olimpianos representa parte fundamental na estabilidade do cosmos. Isso serve para as bruxinhas, no diminutivo por serem tão ignorantes ao ponto de não merecerem o título, que menosprezam deuses solares, como Afrodite, dizendo ser “fresca”, “frufruzinha” ou até mesmo “boba”.

Os fatos do culto helênico antigo são ineludíveis: durante os festivais em honra dos deuses são feitos sacrifícios regularmente não a um, mas a uma série de deuses. Isto está presente particularmente nos calendários áticos de sacrifícios, até mesmo nos das aldeias, e ainda mais no da cidade inteira. Durante as Eleusínias eram nomeados como receptores dos sacrifícios: Témis, Zeus Herceios, Deméter, Ferefata, 7 heróis, Héstia, Atena, as Cárites, Hermes, Hera e Zeus, e depois ainda Poseídon e Ártemis.

O témenos (recinto sagrado) pertence em regra a um único deus. No entanto, aí também podem ser erguidas estátuas de outros deuses, como o Hermes de Praxíteles se encontrava no templo de Hera, em Olímpia. Podem ser feitas consagrações e dirigir preces a outros deuses. Assim, uma estátua de Apolo é consagrada a Zeus ou uma dádiva votiva para Zeus é colocada no templo de Apolo, como sinal de agradecimento pela vitória alcançada. No santuário de Apolo em Argos, encontram-se antigas imagens de culto de Afrodite e de Hermes. Por vezes, os deuses repartem o mesmo témenos, outras vezes repartem o próprio templo, como Atena habita na casa de Erecteu.

Com frequência, os témenos e os templos de vários deuses estão dispostos lado a lado e encontram-se numa relação recíproca articulada pelo culto. Este pode também unir santuários separados espacialmente e até mesmo festivais separados no tempo.

Jean Pierre Vernant, antropólogo e historiador francês, afirmou enfaticamente que um panteão/egrégora tem de ser encarado como um sistema organizado, que implica relações definidas entre os deuses, articuladas como que numa espécie de linguagem/idioma, na qual os deuses individuais estão tão pouco isolados como as próprias palavras de uma língua. Palavras soltas não formam frases!

O deus de um sistema tem o seu sentido através das suas diferenciações de outros deuses, através das suas relações e exclusões, paralelos e antíteses.

Uma coisa é fato: não existe helenismo ortodoxo, ou seja, inúmeras formas de “cultuar deuses gregos” podem ser reconstruídas e amparadas nos cultos antigos, porém, todas as que podemos encontrar estão recheadas de politeísmo. Um deus acaba trazendo outro, seja através do estímulo da vontade de estudar sobre, sonhos, mensagens que são canalizadas através de pessoas aleatórias, etc.

Percebo uma insegurança muito forte na bruxaria brasileira em relação ao culto a vários deuses, como se fosse impossível dar conta ou necessitasse de infinitos recursos, mas as coisas não são bem por aí. Especialmente no helenismo, os deuses são cultuados no dia a dia, através de funções que começamos a enxergar como sagradas (estudar, cuidar da própria aparência, produzir alimentos, cuidar da casa, etc).

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