Orar é um ato de fé que tem como objetivo estimular uma conexão, conversa, pedido, agradecimento, manifestação de reconhecimento ou, ainda, um ato de louvor diante de um ser transcendente ou divino. Pertencente em diferentes credos religiosos, a oração pode ser individual ou em grupo e ser feita em público ou em particular, podendo envolver o uso de palavras, frases em rima, canto ou música.
Em Mileto, atual Turquia, existia um coro, do grego “molpoí”, em honra de Apolo Delfínio. Ao longo do caminho da procissão em direção ao santuário de Dídima, existiam seis capelas nas quais os participantes paravam e cantavam uma canção/oração em honra ao deus. O hino associa-se à vítima sacrificial que vai no cortejo (BURKERT, 1977), que podia ser humana ou animal. Dependendo da oferta, o cortejo poderia receber um novo nome. Exemplo: quando o animal sacrificial era uma cabra, o nome dado aos “cantores da cabra” era “tragodoí”.

Ritual helênico em honra a Apolo, Afrodite e outros deuses, realizado por membros do YSEE, Conselho Supremo dos Helenos Étnicos. A foto está disponível na seção de galeria do site YSEE.
Nos dias atuais, não é incomum que pessoas criem novas orações aos deuses, mas é interessante olharmos para o passado, tanto para observarmos como era a “estrutura base” dessas preces/hinos e usufruir da energia egregórica milenar que os hinos antigos carregam.
Outra forma comum de orar aos deuses gregos é através da dança. No santuário, cada uma das danças características é ainda mais elaborada que a outra. Em Delfos, são os homens e mulheres que dançam a “dança do coelho”, do grego “géranos”, num movimento serpenteado em forma de labirinto. Conta-se que os jovens e as jovens de Atenas aprenderam esta dança conjuntamente com Teseu, após terem escapado do labirinto do Minotauro.
Curetes míticos oscilam os seus escudos dançando ao redor do filho de Zeus recentemente nascido, ocultando o barulho do seu choro dos ouvidos de Cronos, e os escudos de bronze orientalizados da caverna do Ida em Creta são testemunhos da realidade desta “dança dos escudos”, no contexto de uma festa de iniciação do século VIII.
Num hino de Paleiocastro, jovens chamam o deus como “maior dos jovens”, “koûros”, a vir à Dictina, para saltar sobre os rebanhos, os campos, a cidade e os navios, e certamente esta força do deus está presente nos próprios saltos dançados dos jovens.
Quando Palas Atena saltou completamente armada da cabeça de Zeus, já adulta, ela brandiu o escudo e a lança numa dança guerreira e, como imitação desta origem divina, a dança guerreira, do grego “pyrrchiche”, faz parte da festividade a ela dedicada, especialmente nas Panateneias. Rapazes dançam em honra de Apolo nas Gimnopédias, as moças dançam em todo o lado em honra de Ártemis.
O próprio Apolo entra na dança, e Ártemis dança com as suas ninfas, segundo a mitologia. Nos grupos de Ninfas ou Cárites [Graças] como nos de Curetes, mas também nos de Sátiros, sempre prontos para dançar, o arquétipo divino e a realidade humana são frequentemente inseparáveis.
Descrita em seu próprio corpo como uma prece superior a todas as outras, o Proêmio de Orfeu para Museu é com certeza algo a se considerar recitar quando buscamos nos conectar com os deuses gregos, afastar amarras cristãs, limpar nossa energia de outras egrégoras e garantir um apreço geral dos imortais.
Orfeu se dirige nestes versos a Museu, ambos são considerados poetas lendários, anteriores até mesmo a Homero e Hesíodo, mas cuja materialidade se confunde nas névoas do mito. O hino é transmitido como ensinamento que tem como destinatário um único interlocutor, que se encontra no contexto de uma cerimônia religiosa específica. Assim, distancia-se do mundo das grandes performances públicas, como a dos Hinos homéricos, e se vincula a um ambiente cultual restrito, à margem dos ritos oficiais públicos.
“Amigo, usa-o afortunadamente.
Aprende, Museu, o insigne ritual: uma prece, sim, que é superior a todas. Zeus rei, e Gaia [Terra] e puras chamas celestes de Hélios [Sol], sacro esplendor de Selene [Lua] e Estrelas todas; e tu, Poseidon, abraça-terra, de escuros cabelos, pura Perséfone e Deméter de frutos esplêndidos, Ártemis sagitária, a donzela, e Febo Apolo senhor, tu, que habitas a sacra planície de Delfos. E tu, que as maiores honras possuis entre os venturosos, Dionisio dançador; Ares de coração brutal, sagrada força de Hefesto, Deusa nascida da espuma [Afrodite] , a quem coube dons ilustríssimos. E tu, rei das profundezas [Aidoneus], proeminente grande nume; Hebe, Ilitia e nobre força de Héracles; grandes bens de Retidão [Dikaiosyne] e Piedade [Eusebie) invoco; e as Ninfas inclitas, e Pã majestoso, e Hera, de Zeus Egífero, a esposa em flor: Mnemosine amável e Musas evoco, puras, as nove, e as Graças [Cárites], as Horas, o Ano; Leto de belas tranças, insigne Deusa Dione. Curetes em armas, Coribantes e Cabiros, e os grandes Salvadores, imperecível prole de Zeus; os Deuses do Ida e o mensageiro dos Celestiais, Hermes arauto; Têmis, arúspice dos homens, Nyx reverenda eu chamo, e o lucífero Dia [Emar]; Confiança [Pistis], Justiça [Dike] e Legisladora [Tesmodótira] integra; Reia e Cronos e Tétis de escuro véu; o grande Oceano, com as filhas Oceânides; proeminente grande força de Atlas, e de Éon; Tempo [Cronos] sempre fluente e água esplêndida de Estige [Styx); propícios Deuses e, em meio a eles, a boa Pronoia, o Nume sagrado e o Nume hostil aos mortais; os Numes celestes, os aéreos e os aquáticos; os da terra, os subterrâneos e os que habitam o fogo; Sêmele e os companheiros de Baco nos evoés; Ino Leucótea, Palémon doador de fortuna; Nike de doce voz, soberana Adrasteia, grande rei Asclépio, de dons generosos; Palas Atena, donzela que os prélios incita, todos os Ventos sem exceção, aos Trovões e aos pilares do quádruplo Cosmo dirijo-me; a mãe dos imortais, Átis e Men eu invoco; Deusa Celeste Urânia [Afrodite], com o puro Adônis imortal; Princípio [Arkhé] e Fim [Péras) – o que há de maior para todos – vinde benfazejos, com um grato coração a este sagrado ritual e libação insigne.”
Pelo que se supõe, essa oração era utilizada para abertura de rituais “secretos” ou individuais, ou seja, não costumava aparecer em rituais públicos ou procissões. Nas minhas práticas, costumo utilizá-la antes de iniciar a ritualística de evocação dos deuses que desejo naquela cerimônia.
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